Bliss Point ... Conhece?

07/09/2019

E se eu lhe disser que o Bliss Point (ponto de felicidade/alegria/êxtase) é a razão por que não consegue comer só uma batata frita ou só uma bolacha quando abre a embalagem? Talvez se surpreenda.

 

Na faculdade fiquei fascinada com tudo o que aprendi relativamente à química, bioquímica e microbiologia dos e nos alimentos. E isso levou-me a resumir numa simples frase a missão de um Engenheiro Alimentar: gerir a multiplicação de colónias de microrganismos. Recorrendo às mais variadas técnicas (calor, frio, secagem, vácuo, adição de sal ou açúcar, etc) podemos controlar o seu desenvolvimento e, consequentemente, os seus efeitos. Estes podem ser benéficos (por ex: fermentação que origina queijo, pão, iogurte, vinho, cerveja) ou nefastos (por ex: apodrecimentos, o leite que azeda, os fungos nas compotas)

Mas também aprendi que, do ponto de vista sensorial, um engenheiro alimentar também pode manipular os alimentos. Dar-lhes mais textura, viscosidade, crocante, cor, dureza etc.

É aí que entram os mais diversos aditivos alimentares. Temos os corantes, os espessantes, os anti-aglomerantes, os realçadores de sabor, os antioxidantes, entre muitos outros. São eles que permitem mesmo fabricar de origem um alimento (se é que assim se pode chamar), tais como as colas e outros refrigerantes, gomas ou gelatinas.

 

Mas desengane-se se pensa que estes produtos processados são elaborados ao acaso. Não! Eles são cuidadosamente formulados e elaborados em função do Bliss Point.

Que, no caso alimentar, se define como o ponto óptimo de mistura de 3 ingredientes  - sal + açúcar + gordura -  com que se obtém a satisfação máxima de paladar/aroma/textura.

 

Foi nos anos 80 que um matemático e psicólogo americano chamado Howard Moskovitz (e não…não era sequer um especialista em nutrição), perito em pesquisas de mercado, criou testes com base em várias combinações de ingredientes. Os “drafts de alimentos” eram, e ainda são, testados por milhares de pessoas. Consoante os resultados, H.M. identificava qual a combinação ideal que provocava a vontade de comer mais.

Do ponto de vista fisiológico, isto acontece porque o tal ponto óptimo dessa combinação activa o chamado centro de recompensa do cérebro, dando origem à libertação de substâncias químicas do tipo da morfina e de várias drogas que desencadeiam sensações de bem-estar que apetece repetir.

 

Um mundo de conhecimentos químicos, físicos e psicológicos que, ao serem aplicados em larga extensão, permitiu à indústria alimentar vender cada vez mais e deu origem a milhares de novos produtos capazes de chegar a muita gente e de serem desejados por cada vez mais pessoas. Acompanhado de grandes campanhas de marketing, estava montado o cenário que nos trouxe aos dias de hoje, com grande percentagem dos produtos à venda nos supermercados carregados de sal+açúcar+gordura+aditivos. Na maior parte das vezes escondidos ou disfarçados de nomes vários e insuspeitos, de tal modo que despertam nos consumidores os chamados “cravings” (desejos quase incontroláveis) por determinados alimentos, sem sequer perceberem que estão a ser condicionados intencionalmente.

 

Infelizmente, no curso de Engenharia Alimentar, não houve nunca uma única referência a esse tipo de efeitos, sobretudo quando se consome muitos tipos de processados, e com grande frequência. Só depois de sentir as consequências e de um curso em Nutrição Funcional me foi possível compreender que os temas actualmente emergentes: diabetes, obesidade, auto-imunes e tantos outros, contra os quais se luta em vão, têm muita da sua origem no fabrico dos próprios alimentos processados.

 

Comer alimentos processados dirigidos ao Bliss Point, torna-se um círculo vicioso, que inicialmente custa a inverter, mas não é impossível.

Se esta situação lhe é familiar, saiba que pode alterar essas dependências simplesmente mudando a sua alimentação, em cerca de 2 a 3 semanas. Mudar a alimentação significa substituir esses alimentos pelos seus equivalentes não processados. Por exemplo, se o seu “craving” é chocolates de leite, experimente trocar pelo chocolate com 70 a 80 % de cacau, sem aditivos e apenas com manteiga de cacau e açúcar de cana não refinado. Verá que vai passar a gostar!

Ao fazer as substituições, estará a transformar a sua flora intestinal de “bactérias más” que exigem ser alimentadas pelos seus cravings. Estará a impedir a sua multiplicação e a favorecer as “bactérias boas” que, por sua vez, o vão fazer vontade de comer bons alimentos, sem açúcares artificiais, com boa densidade nutricional, sem calorias vazias. E em pouco tempo os cravings vão esbater-se e o seu Bliss Point ajustar-se-á automaticamente, deixando de o fazer sofrer.

 

Aconselho-o a identificar os alimentos “sem os quais não pode passar”.  Veja os rótulos de ingredientes e constate que o mais provável é haver muitos componentes a evitar: muito açúcar, gorduras trans, aditivos, realçadores de sabor.

Se assim for, resista à tentação, não compre; não os ter em casa é um bom começo.

Verifique outros produtos que consome e elimine todos os que tenham excesso de aditivos e açúcares e tente não comprar os que tenham uma lista enorme de ingredientes, com nomes químicos e onde estejam mencionados açúcares e gorduras trans (óleos vegetais refinados).

 

Se quiser ajuda, pode baixar na Appstore a nossa nova App “Nutri Scann” e passe a verificar sempre os rótulos quando for às compras.

Porque nunca é tarde para fazer um Food Reset ! 😊  

Até breve !

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